Cientistas renomados explicam por que são fãs da série ‘The Big Bang Theory’.

Se por acaso acredita que não vai chegar em casa a tempo de assisti-lo na segunda à noite, deixa gravando. Quando a série é lançada em DVD, compra a temporada completa para rever tudo de uma vez – no melhor estilo binge watching, como é chamado o costume de assistir a vários episódios de uma só vez. Não satisfeito, Fernando ainda gosta de colecionar itens relacionados à produção da Warner.

Como a camiseta com o bordão “Bazinga!” do personagem Sheldon Cooper e uma estatueta em resina dele. “O legal da série é que ela tira a aura de seriedade que costuma pairar sobre os cientistas e ajuda a desmistificar a ideia de que a ciência é uma coisa chata”, acredita. Se a ciência não é chata, The Big Bang Theory (TBBT, para os íntimos) muito menos. Em poucas palavras, narra as aventuras acadêmico-científicas de dois físicos – um teórico, Sheldon Cooper (Jim Parsons), e outro experimental, Leonard Hofstadter (Johnny Galecki). Os dois trabalham no Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech) e dividem um apartamento em Pasadena, na Califórnia. Integram a trupe a aspirante a atriz Penny (Kaley Cuoco), o engenheiro aeroespacial Howard Wolowitz (Simon Helberg) e o astrofísico Rajesh Koothrappali (Kunal Nayyar).

No fã-clube imaginário fundado por Roig, o astrônomo Alexandre Cherman, da Fundação Planetário, seria forte candidato a presidente. Admirador confesso de Sheldon, Leonard & cia, diz que, graças a eles, virou “cool” ser cientista. E credita boa parte do sucesso de TBBT ao seu rigor científico.

“Para uma série de comédia, é bem mais precisa do que muito filme sério de ficção, como Interestelar, de Christopher Nolan, e Gravidade, de Alfonso Cuarón. Mas, claro, licenças poéticas são necessárias e até bem-vindas. Se não, deixa de ser entretenimento e vira aula”, pondera.

Se TBBT é uma série “cientificamente precisa”, o mérito é do físico americano David Saltzberg, da Universidade da Califórnia (UCLA). É ele que, entre outras tarefas, revisa as falas dos personagens, propõe discussões científicas e formula as equações na lousa de Sheldon Cooper.

Apesar de toda a consultoria, TBBT não está livre de eventuais “incorreções”. O físico Cláudio Furukawa, da Universidade de São Paulo (USP), aponta uma delas.

No episódio The Vengeance Formulation, o nono da terceira temporada, Barry Kripke (John Ross Bowie) solta gás hélio na sala de Sheldon, que fica com a voz fina durante entrevista a uma rádio.

“Para Sheldon ficar com a voz aguda daquele jeito, seria necessário que houvesse gás hélio na sala inteira. Bem, se isso acontecesse de verdade, não haveria oxigênio para respirar e Sheldon teria ficado asfixiado”, explica.

Nada que, convenhamos, abale o prestígio da série junto à comunidade científica brasileira. Muito pelo contrário. O fascínio é tanto que, depois de descobrir uma espécie rara de abelha em 2012, o biólogo André Nemésio, da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), decidiu batizá-la de Euglossa bazinga – em alusão ao bordão repetido por Sheldon.

Dos protagonistas da série, Sheldon Cooper é, sem dúvida alguma, o mais popular. “Eu me identifico muito com o Sheldon”, admite Cherman, do Planetário.

“Não tenho todas aquelas manias, nem tampouco sou um sociopata. Mas sua crença na Física como o caminho para as grandes respostas do mundo me agrada bastante”, esclarece.

Outro que admite soltar umas boas risadas de vez em quando com as idiossincrasias de Sheldon Cooper é Luiz Pinguelli Rosa. O físico da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) ressalva que não chega a se identificar com o personagem, mas diz que conhece alguns cientistas que têm um perfil parecido com o dele.

“Sheldon Cooper é o típico gênio incompreendido. É muito orgulhoso de si e vive tratando os colegas com certo desprezo, por se dedicarem a assuntos menos quentes da Física”, analisa.

Na hora de eleger seu personagem favorito, a astrônoma Duília de Mello, do Goddard Space Flight Center (GSFC), um dos mais importantes centros de estudo da Agência Espacial Norte-Americana (NASA), não pensa duas vezes: a neurocientista Amy Farrah Fowler (Mayim Bialik) e a microbiologista Bernardette Rostenkowski-Wolowitz (Melissa Rauch).

Um detalhe curioso é que Mayim não é neurocientista só na ficção. Fora dela, é PhD pela UCLA. “As duas são excelentes fontes de inspiração para as meninas que querem fazer ciência quando crescer”, justifica.

Por falar em inspiração, Duília elogia a iniciativa dos produtores de convidar cientistas famosos, como Stephen Hawking, Brian Greene e Neil deGrasse Tyson, entre outras mentes brilhantes, para fazer participações especiais.

“Além de despertar no público adolescente o gosto pelo conhecimento científico, ajuda a reduzir o preconceito contra os CDFs – alunos considerados pelos colegas como excessivamente dedicados aos estudos -, vítimas constantes de bullying nas escolas”, complementa Furukawa, da USP.

O físico e astrônomo Marcelo Gleiser, do Dartmouth College (EUA), é outro assíduo espectador da série. “No espectro entre invenção completa e precisão científica, eu diria que The Big Bang Theory está mais próxima da precisão científica, com alguns exageros e eventuais distorções”, analisa.

Gleiser só teme que Sheldon, Hofstadter, Howard e Raj reforcem o estereótipo do cientista como um nerd socialmente inepto, incapaz de ter relacionamentos saudáveis com o sexo oposto.

“A caricatura é engraçada. Espero apenas que o público não acredite que todos os cientistas são assim. De nerds, Brian Greene e Neil deGrasse Tyson, que conheço bem, não têm nada. E eu também não!”, enfatiza.

Fernando Roig até concorda que a série recorra a estereótipos muito acentuados, mas pondera que, sem eles, The Big Bang Theory não faria tanto sucesso.

“A maioria das pessoas enxerga o mundo da ciência como algo estranho, misterioso ou até bizarro. Não se pode negar que todo cientista tem, lá no fundo, certo grau de loucura ou mania”, entrega. Bazinga!

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